Há
quem se agarre às tradições, ao que era, e que era bom, e defenda que
os amores têm de ser presentes, olhos nos olhos, mão na mão. São contra
os onlines, os chats, os sms. São pela carta escrita, pelas palavras
ditas.
Isto
é tudo muito bonito, e eu também não acho possível que nos apaixonemos
por quem nunca olhámos nos olhos. Mas vivemos nos tempos do online, e
nos tempos do online muito do que vamos sabendo dos outros vamos sabendo
tecnologicamente, pelo que lemos no Facebook, pelo que nos dizem os
mails, pelo que conversamos em chats. E, sinceramente, não vejo mal
nenhum nisso. É como as coisas são, é o que temos, e se é o que temos
devemos aproveitar isso ao máximo.
Eu
sou casado, e, como qualquer marido, vejo a minha mulher de manhã,
antes de irmos trabalhar, e à noite, quando chegamos a casa. E pelo
meio? Pelo meio temos mensagens, temos chats no telefone, temos mails,
temos Facebook, temos blogues, temos telefonemas. Se formos a ver, se
calhar passamos mais horas por dia a comunicar tecnologicamente do que
pessoalmente. Mas qual é a opção? Largar os empregos e ir a correr um
para o outro, em câmara lenta, com música de fundo, e perdermo-nos em
beijos apaixonados num jardim? Largarmos os empregos e irmos passear de
mão dada junto ao Tejo?
A
vida é como é, e depois há a vida dos filmes e das histórias que o
Nicholas Sparks nos conta. E, infelizmente, temos de viver a vida como
ela é, e adaptarmo-nos ao máximo à vida como ela é, porque é nessa vida
que estamos metidos, porque é nessa vida que quem nos rodeia está
metido, e por muito que queiramos contrariar isso, se o fizermos
sozinhos vamos ser isso mesmo, sozinhos, porque não encontraremos quem
queira viajar connosco até à terra dos sonhos, em que os namoros são
todos, e sempre, olhos nos olhos, mão na mão.
Hoje
em dia é perfeitamente possível conhecer uma pessoa com base em
conversas num chat. Eu costumo dizer, meio na brincadeira, que é
possível conhecer uma pessoa perguntando-lhe quais são os filmes da vida
dela (e sim, acho que isso diz muito sobre elas). Agora, uma coisa é
conhecer uma pessoa, outra é apaixonarmo-nos por ela. E isso,
naturalmente, não há online que bata o frente a frente, porque é frente a
frente que se sente e se constrói a química, e sem química ninguém vai
lá.
O
que está aqui em causa não são paixões online ou olhos nos olhos. São
oportunidades de virmos a conhecer alguém. E essas, meus caros, são cada
vez menos, cada vez mais escassas, porque as vidas são cada vez mais
afundadas em locais de trabalho, em empregos de 12 horas diárias. A
paciência para noitadas vai-se com os anos, e quando não se vai, quem
passa a barreira dos 30, sente-se deslocado num bairro alto pejado de
putos bêbedos, num Lux de gente esquisita, numa 24 de Julho onde a
média de idade ronda os 17 anos. Os colegas de trabalho também só
querem é despachar as coisas para ir para casa, e depois o que é que
sobra? Sobra pouco. As pessoas à nossa volta são sempre as mesmas, se
calhar aquelas com quem poderíamos ter alguma sorte já nos passaram
pelas mãos (e afinal tivemos azar), e olhamos à volta e não vemos
grandes saídas. Depois há todo um mundo virtual onde toda a gente vive. E
aí as portas onde bater são infinitas. Mas o preconceito diz-nos que
não o devemos fazer, e que é feio, e que é perigoso, e que não é assim
que se chega ao amor. Tretas, amigos, tretas.
Eu
considero-me um homem inteligente e interessante, não sou feio, tenho
emprego, casa, já corri os cinco continentes. E mesmo assim já passei
por essa fase do “porra, e agora como é que eu conheço pessoas novas e
interessantes?”. Andei oito meses “no mercado” e já me estava a
conformar e a habituar a estar sozinho quando conheci a pessoa com quem
viria a casar, também ela bonita, inteligente, culta, e disponível. Foi
sorte, foi à antiga , olhos nos olhos, mas grande parte do conhecimento,
da partilha de interesses, das primeiras gargalhadas, foi feita em
frente ao computador, cada um no seu posto de trabalho. E isso impediu
que nos apaixonássemos? Não. Tornou-nos piores namorados? Não. Fez com
que não houvesse química e olhos nos olhos? Não.
Sem comentários:
Enviar um comentário